Confesso que me sinto incapaz de definir, de maneira clara e concisa, a base da diferença entre os dias atuais e de 30 anos atrás. Talvez seja a simplicidade, mas pode ser a velocidade, ou talvez mudanças de valores. Mas a realidade é que além dos avanços científicos e tecnológicos, o comportamento das pessoas mudou radicalmente.
Para começar, há 30 anos, a comunidade das pessoas circundava a vila, no máximo o bairro onde se viva, hoje as comunidades virtuais permitem que a barreira seja nenhuma, no entanto, as relações que eram humanas na essência da palavra, hoje estão na fria ponta dos dedos.
Nossas fotos eram expostas em porta retratos que ficavam dentro de casa, hoje estas fotos precisam ganhar o mundo através das comunidades virtuais. Com isso, o vetor da satisfação foi totalmente invertido, sendo mais importante mostrar a foto do que desfrutar do lugar onde estivemos de férias.
Como não existiam telefones celulares, a comunicação entre as pessoas se dava de forma muito mais pessoal. Encontrar amigos, frequentar bares e cinemas permitia conhecer pessoas e estabelecer novas amizades.
Recentemente estive em viagem no exterior e me peguei olhando cartões postais o que me fez recordar que enviar cartões postais com uma mensagem para os amigos era também uma prática comum a 20 ou 30 anos atrás. Mas hoje fica mais fácil postar as fotos no Facebook, no instante imediatamente após terem sido tiradas, assim ficam visíveis aos seus 6.792 amigos.
Amigos? Espere um momento. Como alguém pode ter mais de 6.000 amigos? Amigo é muito mais do que alguém que você troca meia dúzia de palavras ao mês. Exige atenção. Isto mesmo, amizade é algo que nasce do zero e vai se acumulando ao longo do tempo, precisa de continuo cultivo. Sinceramente não vejo a menor possibilidade de cultivar amizade com mais de 6.000 pessoas simultaneamente.
Por outro lado, sempre houve a necessidade das pessoas se conhecerem melhor. Que garoto ou garota não teve em suas mãos aquele caderno com um questionário com perguntas sobre preferências, gostos e opiniões pessoais? Esta era a maneira encontrada, naqueles tempos para melhor conhecer o perfil de uma pessoa, mas o que valia mesmo era como a pessoa era vista no grupo, caso contrário não seria sequer convidado a responder o questionário.
Mas além da necessária evolução no lado da tecnologia que criou facilidades de relacionamento, as pessoas parecem estar mais tristes, solitárias e egoístas. A família perdeu forças para relações mais fúteis. A rapidez passa por cima do capricho e da gentileza. Nos dias atuais o valor está na grandiosidade dos projetos e não na beleza e na pequenez dos detalhes. A maioria das pessoas se esquece de que uma grande arvore teve origem em uma pequena semente.
Apesar de me sentir impotente para entender estas transformações, compreendo que a natureza da vida em sociedade exige evoluções, por isso, acompanhar a evolução e saber trafegar por diferentes tipos de grupos é absolutamente necessário. Mas isto não significa a perda de valores, ao contrário colocá-los acima de qualquer outro aspecto nos torna fortes e mais próximos da essência de nossa existência que é a felicidade continuada.
Permanecer olhando para trás não nos fará melhores, mas olhar para frente, sem perder de vista o espelho retrovisor nos ajudará a ajustar o caminho de maneira a evitar tropeços, não cometer os mesmos erros e principalmente não desviar-se de seus valores e princípios. Não existe nada de mal no saudosismo, mas o caminho da vida será sempre para frente, por isso, chega de saudade.
