quinta-feira, 2 de junho de 2011

Desabafo


Imagem: helveticaneue
Chegaram ao estacionamento do restaurante e, ao fechar a porta do carro, ele teve quase esmagada a ponta de um dedo. Urrou, xingando a mãe da porta.

- Meu bem, olha a elegância... - protestou a noiva.

Ivone Prentã não gostava de palavrão. Prezava o requinte, o glamour. Por isso adotara o Prentã, originalmente Printemps – primavera, em francês. Insatisfeita, transformara o nome de Geraldo Lima, o noivo, em Geraldo Limá.

Pois ele, o Limá, sem qualquer elegância ou glamour, continuava urrando num canto de muro.

- Liga não, Limá. Fica calminho e não se esqueça do nosso trato: vida a dois, só sem palavrão.

- Eu sei, Prenzinha, mas é difícil. Essa pô...

- Limá! Já pedi pra você não falar palavras de baixo calão...

Entraram no restaurante. Ivone Prentã ia acalmando o noivo, lembrando-lhe do que haviam combinado a respeito de desabafos. Em caso de liberar sentimentos ruins, apelariam para palavras inofensivas. Era só darem ênfase ao pronunciá-las. Para isso, recorreriam às agendinhas de bolso que ela preparara, contendo uma lista de ‘ofensas inofensivas’ capazes de lhes salvar a vida.

- Eu sei, meu bem, que a gente pode morrer do coração se não desabafar. Tem lido a listinha pra decorar as palavras? - ela perguntou.

- Faço o possível, mas na hora sempre vem um filho-da.... Desculpe, um flaudrisco flatuloso...

- Em relação à maternidade, filho é algo bonito, sublime. E se V. xinga a mãe do filho de prostituta, V. pode cometer uma injustiça. Por exemplo, a tal senhora pode ter-se regenerado... Além do mais, é preconceito. Essas moças já têm até site oficial na internet.

Limá ia rir, mas o dedo estava doendo. E também, o garçom logo exibiu-lhe o cardápio.

- Às vezes não dá certo, Prenzinha. Domingo fui ao estádio, e enquanto todo mundo mandava o juiz tomar naquele lugar, eu tentava mudar o coro para "uia, uia, juiz barra de cuia"... - lamentou o torcedor Limá.

- E aí?

- E aí que a galera caiu na minha pele, riram até. Me chamaram de veado... É muita humilhação.

- Mas V. se sentiu melhor, não foi? – a noiva quis saber.

- É, senti porque esqueci do juiz. Não vi o resto do jogo por causa da gozação.

O garçom trouxe os pedidos, enquanto o inconformado Limá tocava o assunto adiante:

- Por exemplo, se eu dissesse que V. é uma...

- Uma o quê, Limá? Olha o que V. vai falar, hein?

- É só exemplo, Prenzinha. Até é nome de peixe...

- Que peixe?

- Piranha.

- Eu nem ligo, Limá. Se alguém me chama disso, eu fico tranquila porque essa palavra não me atinge mais.

- Pois é, que graça tem eu chamar V., ao invés de piranha, de aldrava rabiça? - perguntou o noivo, quase convencido de que faria Prentã desistir daquela bobagem de listinha de palavrão.

- Aí eu fico ofendida, né meu bem, porque eu sei o que V. está querendo dizer quando me chama disso.

- Ué, mas não é pra eu desabafar sem ofender?

- É, mas V. não precisa usar a agendinha comigo...

Calaram-se. Terminada a refeição, Limá pagou a conta e, já a caminho do estacionamento, a noiva retomou o assunto. Não gostava de levar dúvidas pra casa.

- Seria o mesmo que eu, ao invés de chamar V. de corno...

- Ih, Prenzinha, eu nem ligo também...

- ... xingasse V. de zebrão de casaca.

Limá parou de repente, ficou sério e reclamou: também não precisava chegar a tanto, que ele acabava sentindo.

- Ué, Geraldo Limá, sentiu o golpe, é? - e Prentã riu satisfeita. O tempo fechou quando Limá chamou a noiva pelo primeiro nome:

- Olha aqui, Ivone, se V. me chama de zebrão de casaca, sou forçado a dizer que V. é pantufa quó-quó...

Já discutiam em alta voz. Limá gesticulava, enquanto Prentã, sem elegância alguma, andava de um lado a outro, com cara de choro.

- Você, meu filho, é que é um tanjão proletário, um iguariço pitão...

- Eu até posso ser isso daí, mas não ando com uma ascritícia gordã, uma gorgona avendiça... Ainda por cima uma gorgona que tem cançoneta frouxa...

Foi o fim de tudo. Ivone Prentã deu as costas ao noivo e entrou num táxi.
Nunca mais se falaram.