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| Imagem: helveticaneue |
- Meu bem, olha a elegância... - protestou a noiva.
Ivone Prentã não gostava de palavrão. Prezava o requinte, o glamour. Por isso adotara o Prentã, originalmente Printemps – primavera, em francês. Insatisfeita, transformara o nome de Geraldo Lima, o noivo, em Geraldo Limá.
Pois ele, o Limá, sem qualquer elegância ou glamour, continuava urrando num canto de muro.
- Liga não, Limá. Fica calminho e não se esqueça do nosso trato: vida a dois, só sem palavrão.
- Eu sei, Prenzinha, mas é difícil. Essa pô...
- Limá! Já pedi pra você não falar palavras de baixo calão...
Entraram no restaurante. Ivone Prentã ia acalmando o noivo, lembrando-lhe do que haviam combinado a respeito de desabafos. Em caso de liberar sentimentos ruins, apelariam para palavras inofensivas. Era só darem ênfase ao pronunciá-las. Para isso, recorreriam às agendinhas de bolso que ela preparara, contendo uma lista de ‘ofensas inofensivas’ capazes de lhes salvar a vida.
- Eu sei, meu bem, que a gente pode morrer do coração se não desabafar. Tem lido a listinha pra decorar as palavras? - ela perguntou.
- Faço o possível, mas na hora sempre vem um filho-da.... Desculpe, um flaudrisco flatuloso...
- Em relação à maternidade, filho é algo bonito, sublime. E se V. xinga a mãe do filho de prostituta, V. pode cometer uma injustiça. Por exemplo, a tal senhora pode ter-se regenerado... Além do mais, é preconceito. Essas moças já têm até site oficial na internet.
Limá ia rir, mas o dedo estava doendo. E também, o garçom logo exibiu-lhe o cardápio.
- Às vezes não dá certo, Prenzinha. Domingo fui ao estádio, e enquanto todo mundo mandava o juiz tomar naquele lugar, eu tentava mudar o coro para "uia, uia, juiz barra de cuia"... - lamentou o torcedor Limá.
- E aí?
- E aí que a galera caiu na minha pele, riram até. Me chamaram de veado... É muita humilhação.
- Mas V. se sentiu melhor, não foi? – a noiva quis saber.
- É, senti porque esqueci do juiz. Não vi o resto do jogo por causa da gozação.
O garçom trouxe os pedidos, enquanto o inconformado Limá tocava o assunto adiante:
- Por exemplo, se eu dissesse que V. é uma...
- Uma o quê, Limá? Olha o que V. vai falar, hein?
- É só exemplo, Prenzinha. Até é nome de peixe...
- Que peixe?
- Piranha.
- Eu nem ligo, Limá. Se alguém me chama disso, eu fico tranquila porque essa palavra não me atinge mais.
- Pois é, que graça tem eu chamar V., ao invés de piranha, de aldrava rabiça? - perguntou o noivo, quase convencido de que faria Prentã desistir daquela bobagem de listinha de palavrão.
- Aí eu fico ofendida, né meu bem, porque eu sei o que V. está querendo dizer quando me chama disso.
- Ué, mas não é pra eu desabafar sem ofender?
- É, mas V. não precisa usar a agendinha comigo...
Calaram-se. Terminada a refeição, Limá pagou a conta e, já a caminho do estacionamento, a noiva retomou o assunto. Não gostava de levar dúvidas pra casa.
- Seria o mesmo que eu, ao invés de chamar V. de corno...
- Ih, Prenzinha, eu nem ligo também...
- ... xingasse V. de zebrão de casaca.
Limá parou de repente, ficou sério e reclamou: também não precisava chegar a tanto, que ele acabava sentindo.
- Ué, Geraldo Limá, sentiu o golpe, é? - e Prentã riu satisfeita. O tempo fechou quando Limá chamou a noiva pelo primeiro nome:
- Olha aqui, Ivone, se V. me chama de zebrão de casaca, sou forçado a dizer que V. é pantufa quó-quó...
Já discutiam em alta voz. Limá gesticulava, enquanto Prentã, sem elegância alguma, andava de um lado a outro, com cara de choro.
- Você, meu filho, é que é um tanjão proletário, um iguariço pitão...
- Eu até posso ser isso daí, mas não ando com uma ascritícia gordã, uma gorgona avendiça... Ainda por cima uma gorgona que tem cançoneta frouxa...
Foi o fim de tudo. Ivone Prentã deu as costas ao noivo e entrou num táxi.
Nunca mais se falaram.

