sexta-feira, 23 de março de 2012

A construção de uma personagem


Rita Lavoyer

Um aspirante a escritor sonhava algo interessante para pôr em uma história sua. Escreveu terra e em seguida água.

Deslizou o seu grafite misturando um elemento ao outro. Desta conjunção surgiu uma lama que já marcava o branco do seu papel. Foi revolvendo aquela mistura com a ponta do seu lápis permitindo-a disforme em suas conformidades a fim, de ele mesmo, aperfeiçoar-se em sua atividade. Em cada linha em que a sua figura se fazia presente o tema desmoronava.

Percebendo-se inábil para o ofício, tratou de se especializar. Projetou-o e traçou sua planta baixa planejando o seu engenho com instrumentos que lhe eram empíricos, proporcionando à celulose vibrações as mais variadas entre sonhos e delírios amassados, enchendo de papéis um cesto do canto. Deixou a sua ideia concretizar, resultando um barro sujeito à consistência.

Vendo-o sem coesão, buscou recursos na ciência da modelagem. Naquela folha, o carbono cristalino formava uma silhueta lexical sombria sobre um fundo branco, deixando à vista uma lógica incoerência no papel do sonhador com a sua matéria.

Na ânsia de botá-la em pé, o aprendiz esmerou-se na arte da marcenaria. Com uma lâmina, lascou a madeira do seu lápis e criou uma coluna para aquela abstração quase uniforme, possibilitando-a nominá-la objeto do seu plano estático. Dado a escultor, talhou-a, concretizando aquela figura.

No canto da página, um arco-íris de palavras era pincelado pelo pintor que o artista se permitiu ser, colorindo as interrogativas que surgiram no decorrer do ofício, e o sopro do agente sobre as cores, para secá-las, preenchia o significado daquele significante, dando-lhe volume, descrevendo a beleza de uma mulher sob o ângulo da sua visão.

Arquitetou diversos códigos e outras mãos de obra, nele, afloravam-se para decorarem o interior daquele ambiente feminino escrito com um lápis. Quanto mais o seu projeto ia tomando forma, muito mais aquela personagem deixava de ser oculta e se determinava naquele roteiro propositalmente destinado a ela. Deixando a condição de aprendiz, o projetista já não a queria mais coadjuvante. Signos e mais signos cristalinos fantasiavam a autoestima daquela sua projeção e a redação já possuía começo e meio definidos. O clima foi surgindo à medida que o redator harmonizava as suas construções sintáticas, dando dinamicidade à sua personagem.

Encaixados muitos fragmentos da arte naquela estrutura, o dono daquela mão que dominava o objeto de escrever, gravou-se primeira pessoa naquela narrativa e na sua cria depositou todo o seu ego. Ela o gerou e pariu para ele o enredo de uma história. Transformada em protagonista, não tendo afinidades consigo mesma, ela se apaixonou pelo seu criador.

Vendo o seu objeto crescendo diante de seus olhos, operando uma disjunção entre o seu sonho e a vida da sua criatura, o escritor puxou-lhe as rédeas. Sem conflito nenhum com a sua condição, num instante, ele rascunhou outro personagem a sua imagem e semelhança denominando-o “homem”. Deu-o à ela em casamento de papel passado à força do seu punho, sem não antes escrever um sorriso feliz nos lábios carnudos daquela mulher que ele criou. Depois de uma leitura refinada, pôs ponto final e assinou: Propriedade de Causa.

Sentindo-se desgostoso com aquele desfecho e não conseguindo mudá-lo, amassou o papel, fez com ele uma bola e o jogou no cesto, falhando na sua performance. Abaixou-se, juntou todos os amassados, pôs fogo e assistiu toda a sua aspiração esvair-se no ar. Ansioso com a carbonização das suas letras, enfiou o rosto dentro daquela fumaça inspirando-a toda, asfixiando-se com a própria criação, sujeitando-se, como sanção, a discursos figurativos, feito água parada jogada por terra.

Recorri ao mestre, excelência em Literatura, para amparar-me na minha construção. Com o seu jeito peculiar de quem nasceu para o ofício, disse-me tudo silenciosamente: "Há muito que consertar". Consertei dentro do meu alcance. São professores dessa estirpe que nos honram com o desejo de sermos eternos alunos. Foi e continuará, apesar de já ser doutor, sendo o meu mestre. Obrigada professor! Rita de Cássia.