quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Crias da mãe gentil


Cecilia Ferreira

Seriam tantas as línguas indignadas, ou dígitos, a não perceber que sol não se tapa com peneira?

“Mas, hein”?, diria mártir Pedro (o enxovalhado Bial).

O que faz a ciência quando quer estudar comportamentos?

Coloca o objeto de estudo em pequenas colônias, em condições ideais, para proliferação e/ou reprodução, enquanto avalia a evolução.


A diferença entre o BBB e outras caixinhas de organismos vivos é que na “casa mais assistida do país” não se põem vírus, bactérias, ou animais irracionais.

O microscópio agora é telinha, instrumento de avaliação da espécie humana (que pressupomos racional).


O programa, que muita gente sabe censurar, mas poucos admitem ter visto, sofre as mesmas críticas há anos. E o resultado da raivosa enxurrada de impropérios é o aumento da visibilidade e números do IBOPE.

Cada um no seu quadrado, mas qual o fascínio que gerou quase 150 mil pautas antes mesmo do início programa?

Por que a raiva se volta para o apresentador que, só faz cumprir o dever de contratado, independente do que a rede televisiva lhe designe queira Pedro carregar, ou não, a pedra?

Por que o “namoro”, que aconteceu em várias edições anteriores, dessa vez gerou mais indignação? Por que só o comportamento do rapaz foi inadequado?


Por acaso uma moça se alcoolizar até perder a consciência e ficar à mercê da própria leviandade é algo super adequado?

Há razões que a razão desconhece, ou seria o tal edredom mais um esconderijo da hipocrisia?

Circula por aí um cordel vexatório que se diz educativo e transforma em trapos o conhecido Bial. Mas sabemos que quem educa, ou é educado, não humilha quem quer que seja.


De que vale jogar nas costas do programa nossas culpas?

Afinal, na telinha estão brasileiros!


Como não ser exemplo de Brasil se o comportamento que exibem é pura reprodução, aceita sem castigo, por onde quer que o álcool circule livremente?

Bial não inventou o comportamento desregrado.

Ignorar que o programa é retrato não torna o jornalista culpado por nossas mazelas. Afinal, “Reality” é um “Show de Realidade”, mesmo sendo um triste espetáculo.

Longe de defender o programa, reconheço: o problema maior é o excesso de álcool que, ao perder a qualidade de agradável hábito social, é transformado em fuga coletiva por uma juventude sem propósitos.

Dali às drogas...

Nada parece satisfazer a sociedade que atinge liberdades e bem-estar nunca antes alcançados.


A indústria do entretenimento cresce, o egocentrismo sobra, o núcleo familiar e a conduta ética e moral perdem prestígio, enquanto a satisfação dos desejos da carne para ir de encontro à felicidade imediata vai sendo incentivada.

Sim, não criamos nada. Tais coisas são consequências dos tempos fáceis.

Outras civilizações, chegando ao apogeu que sua época permitia, somente desfrutaram do trabalho árduo de antepassados.

A sequência foi desconstruir-se rumo ao próprio extermínio.


Solução?

Começar de novo com regras rígidas, privações e trabalho próximo do insano.

Pena não aprendermos com experiências passadas.

O ideal?

Usufruir sem abuso para manter o conquistado.

Mas, se continuarmos a achar que programas de televisão são os responsáveis pela destruição da sociedade

e não o puro reflexo do que já acontece, teremos forças para nos salvar?

BBB 12...


“Mas, hein?”.


Por que a indignação nacional não se atira sobre a ganância escarnecedora e desclassificada de alguns?

Por quê não nos corrigimos para que o espelho possa exibir a realidade que afirmamos querer?

Raciocinamos aqui sobre os porcos?

Ah, a redundância da aparência.

Eu falava justamente de nossas flores...


Não incomoda saber por que essas tão dispostas vozes não gastam tempo a adubar jardins, podar daninhas, e entoar um “Brado Retumbante”?

Curiosidades:

* Cada movimento (orquestrado) de perseguição televisiva dá aos políticos
mais uma chave para abrir as portas da censura.

* A censura é um monstro que principia por calar o pior, mas deseja calar o melhor que há no Brasil.

* Crônica de Cecilia Ferreira