Paulo Néry
São incontáveis as montagens cinematográficas sobre a vida e paixão de Jesus Cristo. Sabemos que desde os primórdios da Sétima Arte, os pioneiros investiram em diversas adaptações dos Evangelhos. Acredita-se que mais de duas mil versões foram realizadas sobre a vida do homem que dividiu o tempo antes e depois dele, seja no cinema e na televisão.
Logo, seria impossível enumerar todas as películas feitas sobre a vida do Redentor. No presente artigo inspirado na passagem da Semana Santa e da Páscoa, ilustraremos os mais importantes no hagiográfico tema religioso no cinema. São estes:
1-A Vida e Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo (1905) – de Ferdinand Zecca.
2-Da Manjedoura à Cruz (1912)– de Sidney Olcott
3-O Rei dos Reis (1927) – de Cecil B. DeMille
4- Golghota (1934) de Julien Duvivier
5-Rei dos Reis (1961) de Nicholas Ray
6-O Evangelho Segundo São Mateus (1964) de Pier Paolo Pasolini
7-A Maior História de Todos os Tempos (1965) – de George Stevens
8-Jesus de Nazaré (1977) – de Franco Zeffirelli
9-A Última Tentação de Cristo (1988) – de Martin Scorsese
10- A Paixão de Cristo (2004) – de Mel Gibson
Mas para elaboração e análise aprofundada de cada uma destas obras, teremos que fazer uma breve retrospectiva sobre este personagem enigmático, que ao longo de 2.000 anos vem atraindo artistas de todos os gêneros, escritores, teólogos, e estudiosos, e que fora do Novo Testamento poucas referências ainda temos sobre sua vida pública.
QUEM FOI O HOMEM JESUS?
O que todos sabemos sobre a vida de Jesus Cristo, o Messias, nos é contada nas páginas da Bíblia Sagrada. O filho de Deus nascido de uma mulher virgem por intercessão do Espírito Santo. Sua vida é a mais bela história de amor ao próximo. O calvário, a cruz, a crucificação do Messias. Aquele que veio para salvar a humanidade através de sua paixão, morte e ressurreição.
Pesquisas atuais mostram que Jesus foi um revolucionário em seu tempo, sua inteligência e visão futurista eram avançadas demais para a época em que viveu. Um rebelde pregador, que incomodava a elite de Jerusalém e os governantes. Em apenas trezentos após sua morte, a igreja Católica já detinha o poder no mundo Ocidental, graças aos feitos do Imperador Constantino, O Grande.
O que intriga os pesquisadores dos escritos do novo evangelho é saber como uma pessoa vinda simples conseguiu em tão pouco tempo converter tanta gente. Os milagres feitos em vida seria um dos motivos. A expansão rápida do cristianismo nos aponta para os milagres realizados por Cristo. Coisas fantásticas devem ter ocorrido diante dos olhos da população da época e mudado a mente daqueles cidadãos que foram convertidos ao cristianismo. Os milagres aconteceram, mas é impossível se provar algo a esse respeito, visto a precariedade dos relatos deixados desde então.
A principal fonte sobre Jesus são os quatro evangelhos canónicos (Mateus, Marcos, Lucas e João) a que se somam outras fontes cristãs, como os evangelhos apócrifos, e um número escasso de fontes não cristãs. Estas fontes providenciam poucas informações sobre o Jesus histórico
Três dos evangelhos canónicos (Mateus, Marcos e Lucas) são conhecidos como sinópticos devido às suas semelhanças. Embora Mateus apareça em primeiro lugar no Novo testamento, acredita-se atualmente que Marcos foi o primeiro a ser escrito. Enquanto que Mateus dirige-se a uma audiência judaica, e Lucas aos gentios, ambos parecem ter usado Marcos como fonte, possivelmente numa versão inicial de João, por seu lado, "é uma produção independente, apresentando os dizeres de Jesus Cristo na forma de discursos que difere do que contam os outros três.
De acordo com alguns historiadores, estes textos foram escritos entre setenta a cem anos após a morte de Cristo. Eles recontam em pormenores a vida pública de Jesus, ou seja, o período de pregações nos últimos anos da sua vida. No entanto, há limitadas informações sobre sua vida privada. Representam os principais documentos em que convergem os trabalhos hermenêuticos dos historiadores. Na atualidade, diversas escolas com diferentes pontos de vista sobre a confiabilidade dos evangelhos e a historicidade de Jesus têm se desenvolvido
Em algumas obras de autores antigos não cristãos estão algumas referências esparsas sobre Jesus ou seus seguidores. A mais antiga destas obras é o Testimonium Flavianum. Alguns historiadores consideram tais referências como interpolações posteriores de copistas cristãos.
Jesus foi um profeta e, como todos eles, desmascarou as hipocrisias e a falta de fé dos homens de sua época. E foi mais longe: Desafiou as autoridades religiosas de seu tempo, rompendo com tradições e costumes de sua época, trazendo novos ensinamentos.
Foi assim quando expulsou os vendedores do templo, foi assim quando conversava, se alimentava, e convivia com os gentios (ou mesmo pagãos, considerados impuros), e foi assim quando chamava os fariseus (poderosa facção política/religiosa da época) de hipócritas e aproveitadores. Foi assim quando se aproximava das mulheres samaritanas (um tabu para a época), quando curava judeus e pagãos. Tudo isto chocava e escandalizava naqueles dias.
E foi contrariando interesses econômicos por parte do Sinédrio, que servia a seu modo ao Império Romano, que Jesus de Nazaré foi morto.
O poder religioso, percebendo a sabedoria de Jesus, percebendo que a doutrina Dele convertia muitas pessoas, percebendo que ele era contrário ao sistema religioso vigente, decidiu matá-lo. A liberdade de expressão sempre incomodou quem esteve no poder. Armaram uma cilada para Jesus, prenderam-no à surdina, de madrugada, aproveitando a festa da Páscoa.
Jesus não foi morto nem pelo povo judeu e nem pelos romanos. Jesus foi morto pela elite do sistema religioso, pelos chefes dos sacerdotes, pelos doutores da lei, pelos hipócritas, pelos verdadeiros sepulcros caiados e guias cegos, pela raça de víboras, pelos que gostam dos lugares de honras nos banquetes e das primeiras cadeiras nas sinagogas. Foram essas pessoas, que eram em número elevado, que o acusaram de blasfêmia, e gritaram: Crucifiquem-no! Crucifiquem-no!
Este foi o Homem Jesus e seu tempo.
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