segunda-feira, 9 de abril de 2012

A vida em 3D


Matheus Farizatto

Aos cinco anos fui ao cinema com minha tia e prima assistir ao clássico da Disney “A Bela e a Fera”. Vinte anos depois, voltei à poltrona – agora mais confortável – diante da grande tela e desta vez acompanhado apenas de um grande copo de refrigerante para assistir à animação, relançada em 3D. Qual foi a diferença entre as experiências? A profundidade com que vi o filme. E o efeito não se deu apenas pelos óculos de plástico.

Na exibição quando criança, captei a mensagem óbvia: “não se deixe levar pelas aparências”. Aos 25 anos, notei o quanto este clássico é atemporal. A camponesa Bela não se encaixa em seu vilarejo. As pessoas a rejeitam por ela ser diferente do senso comum. Os homens acreditam que livros não fazem bem às mulheres, afinal, “logo elas começam a ler e ter ideias”, como diz o parrudo, Gaston. Enfim, assistir ao longa exibido em camadas foi bem mais interessante. E assim acontece com a vida quando vista em profundidade.

Antes mesmo de a sessão começar, um colega ligou convidando para jantar e eu disse que iria ao cinema. “Mas você vai sozinho?!?”, incrédulo do outro lado. “Sim. É um dos programas que mais gosto, mesmo estando em um namoro”, respondi. “Ah, não, eu não consigo”.

Já fui do tipo de achar que tudo tem que ser feito junto em um relacionamento. Águas passadas. O individualismo é saudável na relação a dois, porém, muitas vezes mal visto por casais do tipo que colocam no Facebook, de dois em dois minutos, duas fotos com os dois em duas festas nos dois dias do fim de semana. Isso é falta dos belos óculos de terceira dimensão.

Uma amiga passou horas desabafando o fim de relacionamento comigo. Em uma confusão de sentimentos, ela não consegue entender o fato de o cara ter perdido o desejo por ela. Coloca a culpa em si mesma. Joga no colo dele. Uma bagunça. Diz que ainda não acredita no que ocorreu na manhã da briga. Mas na verdade a relação já vinha manca das pernas há meses e, contando com a honestidade de ambos, pode ter simplesmente acabado. Ninguém é culpado. Todos nós estamos expostos a isso em um relacionamento.

No trabalho, outra amiga disse que não aguenta mais os “homens de Ribeirão Preto”. Cansada das mesmas falta de iniciativa e bom papo, baladas e pessoas, acredita que “o cara” para ela não está na cidade de onde o autor desta crônica vos escreve. Depois de uma conversa, a linda chegou à conclusão de que talvez variar um pouco o “nicho” – entenda círculo de amigos – ajude.

Nestes e em muitos outros casos, o melhor a fazer é olhar para a situação em diferentes camadas para assim compreender o todo.

Ainda há quem reclame do 3D, mas às vezes as pessoas podem precisar de um incentivo para enxergar a vida com um pouco mais de profundidade.